O CORVO
(de Edgar Allan Poe/ trad. Fernando Pessoa)
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
.......................... English ..........................
THE RAVEN
Edgar Allan Poe
Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door. *
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door -
Only this, and nothing more."
Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; - vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow - sorrow for the lost Lenore -
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore -
Nameless here for evermore.
And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me - filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door -
Some late visitor entreating entrance at my chamber door; -
This it is, and nothing more."
Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you" - here I opened wide the door; -
Darkness there, and nothing more.
Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!" -
Merely this, and nothing more.
Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore -
Let my heart be still a moment and this mystery explore; -
'Tis the wind and nothing more."
Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door -
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door -
Perched, and sat, and nothing more.
Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore -
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning - little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door -
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."
But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered - not a feather then he fluttered -
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before -
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."
Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore -
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never - nevermore'."
But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore -
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."
This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!
Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee - by these angels he hath sent thee
Respite - respite and nepenthe, from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
"Prophet!" said I, "thing of evil! - prophet still, if bird or devil! -
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted -
On this home by horror haunted - tell me truly, I implore -
Is there - is there balm in Gilead? - tell me - tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
"Prophet!" said I, "thing of evil - prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us - by that God we both adore -
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore -
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."
"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting -
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted - nevermore!

O Holandês Voador surge repentinamente nos mares: navio-fantasma, veleiro diabólico, barco maldito, condenado a vagar eternamente entre dois dos três cabos. Do cabo das Tormentas ao cabo Horne, com seu satânico capitão Bernard Fokke ao leme, no meio da tempestade, envolto em relampagos, o veleiro fantástico aparece entre duas enormes vagas, prestes a desaparecer entre duas outras. Lenda? Certamente! Mas mesmo assim os guarda-costas norte-americanos destru¡ram 267 navios-fantasma em 1930 e outros apareeem sempre. Trata-se dos destroços de navios naufragados? Sim, mas também de barcos inteiros.
Isso aconteceu especialmente no tempo da navegação a vela e não tem nada de fantasmagórico! Talvez, mas falamos de alguns barcos que navegam autenticamente --- e toda lenda tem seu fundo de verdade. Em abril de 1890, o Marlborough, com seus três mastros, sob as ordens do capitão Hid, foi visto nas imediações da costa sinistra que separa o estreito de Magalhães das ilhas do cabo Horne. Depois não se teve mais not¡cia dele. O Marlborough foi considerado desaparecido. Exactamente em outubro de 1913, 23 anos mais tarde, o Marlborough reapareceu na mesma região, com as velas levantadas. As grandes vagas , que provocam tremores de terras submarinos , atingem até 150 km de comprimento e se deslocam a uma velocidade de quase 800 km/h.
Nessas regiões, o mar pode invadir a costa até dez metros por ano, provocando tempestades violentas. Pois bem, durante 23 anos o Marlborough não foi destru¡do e suas velas continuaram intactas. Não se teria abrigado em uma ba¡a e voltado ao mar mais tarde impelido por um vento da terra? Imposs¡vel. Se tivesse encalhado, as autoridades chilenas ou argentinas teriam sido notificadas, pois os habitantes da Terra do Fogo eram saqueadores tem¡veis, que precisavam de madeira, víveres e roupas. Ora, a carga do navio estava igualmente intacta.
Algumas pessoas subiram a bordo. As enxarcias estavam verdes, a ponte inteiramente podre, o diário de bordo todo mofado. Um esqueleto foi encontrado segurando o leme, três outros em cima da coberta perto do quartel das escotilhas, dez nos seus postos e seis no refeitório. Todos estavam vestidos normalmente; todos pareciam ter morrido em suas funções e ao mesmo tempo. Uma epidemia teria provocado um reagrupamento. Um envenenamento é inadmiss¡vel, porque a tripulação não come às mesmas horas e também porque as reacções dos organismos são diferentes de indiv¡duo para indiv¡duo. Hoje talvez pensassemos em algum fenómeno de radioactividade, mas quem pode saber? 0 veleiro que descobriu o Marlborough afastou-se do navio-fantasma e esse nunca mais foi visto.
Em 1873, alguns navegadores encontraram o C. Radorn, um barco de três mastros, com as velas recolhidas. A bordo reinava o silêncio. A seu lado flutuava um outro veleiro de três mastros, em perfeito estado, habitado unicamente por três magn¡ficos cães terra-nova que andavam de um lado para o outro do tombadilho. Nunca mais se ouviu falar nesses navios nem em suas tripulações.
Outro caso famoso foi o do barco carregado de acaju que, com as velas levantadas entrou sozinho no ancoradouro do porto de Cork, na Irlanda. 0 casco não levava nome algum e não havia documentos a bordo. Ninguém reclamou esse navio anónimo. Em 1907, o Quevilly, de Rouen, encontrou os destroçs da escuna Everest Wabster, considerada perigosa. Pelo binóculo, tudo parecia deserto. A proa estava mergulhada no mar, e tinha a coberta lisa, como um batelão. Algumas pessoas subiram a bordo e encontraram, nos leitos que não estavam inundados, a tripulação quase completa , desfalecida, faminta, e sem forças para fazer sinais.
Como ocorre com os seres humanos , alguns navios agarram-se à vida e não aceitam morrer sem lutar até o fim. O Ada Iredale abandonado em chamas , foi encontrado oito meses mais tarde , ainda em combustão . O petroleiro Oklahoma foi cortado em dois. A parte traseira afundou , enquanto a frente continuou flutuando com seu mastro na vertical. Foi encontrado depois ligeiramente inclinado, como um nadador que se prepara para uma longa travessia. Um navio guarda-costas encheu-o de dinamite. Ele mergulhou reaparecendo um pouco adiante. Dobraram a quantidade de dinamite e depois triplicaram sem sucesso. Foi alvejado com um canhão de 12 polegadas. 0 petroleiro tornou a virar e flutuou de dorso para cima. À noite, finalmente, o Oklahoma dignou-se afundar como um soldado exausto que entrega o último sopro. Os marujos corajosos conhecem bem essa resistência inacreditável dos navios.
Em 1951 , Kurt Carlsen, comandante do Flying Enterprise , permaneceu sózinho, durante 13 dias, em cima do costado do navio avariado. No dia 26 de outubro de 1902, o barco de três mastros Tourny, da Marinha francesa, foi assaltado por uma tempestade no golfo de Valencia. Um navio de passageiros salvou a tripulação com excepção de um unico homem. Esse, um marinheiro chamado Denis, escondeu-se voluntáriamente a bordo do navio condenado. No dia 31 de outubro, à noite, o barco da Marinha francesa, Isére , encontrou o Tourny quc flutuava com o costado na agua cerca de 140 milhas ao noroeste de Orã.
A bordo estava um homem que não queria abandonar o navio naufragado. Não podia ser salvo a menos que se atirasse ao mar e o navio de guerra não podia correr o risco de aproximar-se muito. 0 Isére afastou-se e notificou o caso ao porto mais próximo. No dia 8 de novembro, o vapor inglês Syrian Prince tornou a avistar o veleiro flutuando. 0 mar estava calmo. 0 vapor sc aproximou. Denis notificou o comandante que somente aceitava ser rebocado mediante a cláusula no cure , no pay (o pagamento só seria feito caso o reboque fosse bem sucedido). Denis recusou a corda pelo vapor , jogou ele próprio uma corda e assumiu o leme do veleiro . 0 tribunal mar¡timo concedeu-lhe um terço do valor de revenda do navio e de sua carga. Denis ganhou uma fortuna.
Assim , não há motivo para se admirar com as viagens inacreditáveis dos navios-fantasmas. O Dalgonar , deitado no costado , com os mastros e a quilha em cima da água , percorreu mais de 5 mil milhas no Pacifico. O Wyer G. Sargent , abandonado em Halteras , percorreu 6 mil milhas em 18 meses antes de encalhar no estreito de Gilbratar. O Leon White , abandonado junto à costa canadense , foi até a Irlanda , voltou ao Canadá e partiu para as Hévridas , ou seja, 6.800 milhar em dez meses . Os destroços do Fanny E. Wolson , abandonados perto de Charleston, foram vistos um ano mais tarde nos Açores ; o navio naufragado voltou-se depois contra os ventos dominantes no cabo Haiteras e dirigiu-se à Terra Nova , onde desapareceu.
Será que essa explicação basta?
Talvez, mas mesmo assim ocorrem algumas coincidências estranhas. Em 1931 , no extremo norte do Canadá , alguns caçadores construiram barracas nas margens e se prepararam para passar o inverno . Mas certa manhã perceberam , espantados , que o Baychino não estava mais no mar : tinha desaparecido com a carga. Lastimando a mercadoria perdida , os caçadores chegaram por terra a Vancouver, onde ouviram contar que seu barco tinha sido visto nas ilhas Franklin , onde estava ancorado normalmente . Um mês mais tarde, um explorador encontrou o barco , em perfeito estado , no mar de Beaufort , mas não pode retirar as peles . A tripulação de uma escuna , depois alguns esquimós e outros caçadores , tentaram apropiar-se da carga , em uma região mais ao norte . Esses também não foram bem sucedidos . O Baychino continua navegando até hoje em alguma região do oceano Ártico. Como um cão fiel, ele se afasta dos que não são seus verdeiros donos.
0 Rescue --- antigo navio polar --- foi cedido como navio-armazém ao George-Henry , baleeiro em expedição no estreito de Hudson. Em um dia de tempestade , em setembro de 1880 , o Rescue perdeu os mastros e rachou ao meio. A tripulação foi levada para bordo do George-Henry , que prosseguiu sua atividade . Um ano mais tarde , o George-Henry encontrou-se diante do Rescue que não havia afundado e que parecia seguir uma rota , em vez de navegar à deriva . Logo depois ele desapareceu . Nova tempestade , grandes pedaços de gêlo e, de repente, o Rescue surgiu , impedindo a passagem do George-Henry. O baleeiro , cercado pelos icebergs, não pode manobrar. O Rescue avançou em sua direção. Como um fantasma, o Rescue parecia completamente livre em seus movimentos . Ia abalroar o outro navio mas passou a alguns metros da popa. Naquela noite os marinheiros estavam nervosos e discutindo quando, subitamente , o Rescue tornou a surgir . De novo se aproximou do baleeiro e os marinheiros começaram a perder a cabeça . O navio condenado perseguia-os! O comandante só conseguiu tranquilizar a tripulação quando o Rescue desapareceu definitivamente no horizonte, como um animal desesperado que foi abandonado na estrada e que , exausto de correr , se resigna , finalmente , com sua sorte.
Mas os animais abandonados não se tornam, algumas vezes, furiosos como os lobos? No dia 18 de março de 1884, em meio à neblina, o Frigorifique --- primeiro navio equipado com câmaras frigoríficas --- foi afundado pelo Rumney. Este último recolheu a tripulação do navio francês e prosseguiu em sua rota sob a neblina. Bruscamente, um vulto surgiu das sombras e se precipitou sobre o Rumney , como se fosse transpassa-lo. Um vulto idêntico ao Frigorifique, silencioso como um fantasma, embora saísse fumaça da sua chaminé, enquanto que a do Frigorifique. tinha sido vista cheia de àgua. A abordagem foi evitada por um triz. De repente, a estranha massa sombria reapareceu, precipitou-se de novo sobre o navio inglês e, dessa vez, conseguiu atingi-lo. 0 Rumney afundou e o navio-fantasma afastou-se tranquilamente . As duas tripulações, apavoradas ao extremo, abandonaram o navio nas baleeiras. A neblina diminuiu e os homens tornaram a ver o Frigorifique que navegava em direção a leste, depois sudoeste, e finalmente para o sul. O panico se generalizou quando o navio-fantasma rumou em direcção às baleeiras. Todos responderam à chamada, logo não podia haver ninguém à bordo. A baleeira dos marinheiros franceses conseguiu abordar o navio abandonado. Alguns subiram a bordo e encontraram as màquinas em perfeitas condições, "movimentando lentamente a hélice", enquanto o leme, "voltado completamente para a direita" , fazia o navio descrever grandes circulos. Embora fosse posteriormente afundado --- dessa vez para sempre --- o Frigorifique tinha se vingado do seu agressor.
Os mistérios do mar, contudo, nem sempre são tão insondáveis quanto se poderia pensar. Quando o Istrennan, navio-caçador de focas, foi encontrado ao largo do cabo Horne, com todas as luzes acesas, a mesa servida no refeitório para o jantar, era poss¡vel pensar que o misério permaneceria inexplicável. Entretanto, um moribundo contou no hospital de Hamerfest que, juntamente com um bando de outros ladrões, havia assaltado o navio ancorado. Os assaltantes recolocaram tudo no lugar, esfregaram o convés ensanguentado, colocaram os pratos e os talheres na mesa. À noite, acenderam as luzes, suspenderam as velas, levantaram a âncora, dirigiram o navio para alto mar e depois fugiram na escuridão.
Durante muito tempo, os marinheiros sonhavam com a história do Mary Celeste.
No dia 4 de dezembro de 1872, o veleiro Dei Gratia avistou o Mary Celeste ao largo dos Açores. Abordou-o e, para grande perplexidade do capitão Moorhouse, não havia ninguém a bordo: Moorhouse conduziu a Gibraltar um barco considerado abandonado.
Na cabine do imediato, o capitão encontrou o cofre bem como o diário de bordo, cuja última menção dizia:
"24 novembro, 11 horas da manhã , 36º de latitude norte, 27º de longitude oeste, bom tempo".
Uma linha foi pulada. Depois, logo abaixo, com a mesma letra apertada :
"Sucede-nos uma coisa estranha . . . "
Era tudo. 0 mistério permaneceu insondável durante 50 anos. Em setembro de 1872, no porto de Nova York, Moorhouse havia encontrado Briggs, o capitão do Mary Celeste. Moorhouse , em troca de uma parte da carga ceedera a Briggs três homens da tripulação, e os dois comandantes marcaram encontro na ilha de Saint-Michel. Briggs embarcou no Mary Ce!este com sua mulher e um piano que foi o responsável por todo o drama. A viagem do Mary Celeste transcorreu em um clima de brigas e de discussões, sobre tudo entre o oficial Hullock e o marinheiro Venholt. A presença da senhora Briggs contribuiu para aumentar o nervosismo geral. Hulloek, irritado ao ouvir os exercicios de piano da senhora Briggs a um cent¡metro de sua cabeça, atrás de um biombo, mudou o piano de lugar.
Certo dia, o vento cessou bruscamente. Nuvens se formaram a uma velocidade fantástica, o mar sem ondas começou a brilhar como um espelho, e depois o Mary Celeste começou a tremer, a estalar e a dançar frenéticamente. Era uma tempestade inteiramente imprevista. Bnggs desceu a sua cabine para observar o enquanto Hullock deixava correr as adriças . De repente, o drama se desencadeou: sob golpe de uma manobra brusca, a senhora Briggs foi esmagada pelo piano. Louco de dor, Briggs acusou Hullock e Peter Banson o timoneiro, pelo acidente mortal. Hulloe mandou atirar ao mar o cadáver e o piano acompanhado pelo próprio Briggs. Sob as ordens de Hullock, os homens beberam, brigaram e um outro homem caiu ao mar, precisamente o marujo Venholt.
0 navio ancorou em Santa Maria dos Açores, onde Hulock desertou, com medo de ser interrogado por dirigir um navio sem comandante. Toda a tripulação seguiu seu exemplo, com exceção dos três homens cedidos pelo Dei Gratia e do cozinheiro Pimberton. No dia 4, um veleiro apareceu no porto. Era o Dei Gratia. 0 capitão Moorhouse era um homem experiente . 0 navegante que encontra um navio abandonado faz um excelente negócio: não havia ninguém a bordo do Mary Celeste . Ninguém, porquanto os três marinheiros estavam escritos no livro do Dei Gratia.
Sobrava apenas o cozinheiro. Evidentemente ele podia ser atirado do tombadilho. Mas o capitão Moorhouse era um cavalheiro perfeito: propos pagar ao cozinheiro sua passagem de volta para a Inglaterra, contanto que não abrisse a boca sobre o ocorrido Foi ali que, 50 anos mais tarde, um jornalista foi encontra-lo para ouvir sua confissão. Assim terminou um dos mistérios mais ¡nsondáveis do mar.
De 1891 a 1893, os relatórios oficiais dos capitães assinalaram 1628 navios-fantasma. Em 19 12, calculava-se que o número deles aumentava de duzentas unidades por ano . Claro, isso aconteceu há muito tempo. Mas não devemos esquecer que existem verdadeiros câmaras frigor¡ficas para os navios, que são os grandes blocos de gelo. Em 1852 , os navios Terror e Erebius, do explorador John Franklin, reapareceram presos em um iceberg, seis anos depois de terem sido abandonados nas geleiras do arquipélago polar norte-americano. Em 1911 , foi encontrado em perfeito estado o navio de exploração Investigator, abandonado por McLure em 1854.
Em 1911 , um outro navio foi descoberto no Antártico e seus papéis estavam datados de 1848, ou seja, de 63 anos antes. Como alguns mamutes foram encontrados na Sibéria, não nos devemos espantar se, um dia, o célebre Holandês Voador aparecer, com suas velas ao vento.
A menos que, daqui até lá , desiludidos por nossa civilização mecanica, todos esses navios desaparecidos alcancem o famoso "cemitério dos navios perdidos . . ."
Os navios se comportam como certos cavalos levados ao matadouro.
Em 1950, o couraçado brasileiro São Paulo, puxado por dois rebocadores, partiu com destino à Inglaterra onde deveria ser desmantelado. Ferto dos Açores, dois cabos quebraram, o vento leve se transformou em tempestade e o São Paulo desapareceu. Aviões sa¡ram a sua procura pois havia oito homens a bordo : tarde demais, o São Paulo recusou ser demolido.
Durante toda nossa infância ouvimos histórias sobre o "cemitério dos navios perdidos" , situado no mar dos Sargaços . Para os romanc¡stas, esse mar sem correntes, sem ventos, coberto de algas, conserva como uma hidra , tudo o que entra no seu dom¡nio.
Lenda? Claro! Mas mesmo ass¡m o Florence E. Edgett foi encontrado ali dez anos após ter sido abandonado perto das ilhas Sotavento. Outros autores imaginaram que nesse lugar dantesco vivia, em cima de um aglomerado de navios de todas as épocas, reunidos lado a lado, uma comunidade de naufragos de todos os pa¡ses. Afinal, esses barcos desaparecidos levavam mulheres a bordo e, em 1884, foi encontrado nesse alucinante mar dos Sargaços um navio tão antigo que não era poss¡vel ler seu nome no casco . . . Mas esse barco arcaico transportava cadáveres que não tinham nada de arcaico. Assim, a lenda é muitas vezes confirmada pela realidade. A realidade pode desfazer a lenda, mas essa última é , muitas vezes, reforçada pela primeira. Tudo é lenda antes de ser conhecido. Nossos deuses morrem lentamente, mas outros deuses mais jovens os substituem. Talvez, um dia, percebamos melhor a verdade do poeta:
Objectos inanimados, tendes por ventura uma alma
Que se une à nossa alma . . .
Para quem gosta de aventuras , o cemiterio dos navios perdidos é também o cemitério dos tesouros. Os navios afundados na corrente do Golfo e na corrente norte-equatorial navegam sob a àgua, até a altura do Taiti, depois tomam a direcção do norte, entram no mar dos Sargaços e encontram um banco de areia onde encalham.
Depois de muitos séculos sobram apenas as armações de aço e ouro. Em Puerto Placa, dizem que o banco de areia está situado um pouco acima do Trópico do Cancer, não muito distante dos 68º de longitude leste. Talvez não se encontre ali o tesouro do Banco de Prata, muito menos um navio-fantasma, mas com toda certeza é um bom lugar para o aventureiro encontrar-se a si mesmo.
Extraido de um texto de Camille du Val